Tem uma cena que se repete em conta de clínica: a campanha fica pronta, o anúncio vai pra revisão e volta com o status "Reprovado" ou "Qualificado (limitado)". Quase sempre o motivo não é a estratégia, é uma palavra. Às vezes está no texto do anúncio, às vezes está escondida na página do site, e a clínica nem sabe que ela está lá.

Saúde é uma das categorias mais vigiadas do Google Ads. A boa notícia é que as palavras que causam problema seguem um padrão, e dá pra evitar quase todas antes de o anúncio ir pro ar.

1. Nome de medicamento de prescrição

É o erro mais comum em estética. "Botox", por exemplo, não é o nome do procedimento, é a marca de um medicamento de venda sob prescrição. "Botox" e "toxina botulínica" estão os dois na lista de termos de medicamento monitorados pelo Google, então trocar um pelo outro não resolve. Desde outubro de 2025 o Google aceita menção não promocional desses termos (aviso regulatório, conteúdo acadêmico, campanha de saúde pública), mas uma página que oferece e agenda o procedimento é promocional por definição. E a certificação que libera palavra-chave de medicamento é pra farmácia e telemedicina em países específicos, não pra clínica de estética no Brasil.

E tem uma segunda camada, que vale fora do Google também: no Brasil, propaganda de medicamento de venda sob prescrição é permitida só em comunicação voltada a profissionais de saúde (Lei 9.294/1996, art. 7º, e RDC Anvisa 96/2008, art. 27). E a Resolução CFM 2.336/2023 permite anunciar a aplicação do fármaco, mas proíbe citar marca comercial e fabricante (art. 9º, XVIII). Anúncio pro público com nome de medicamento é problema em três frentes.

O que escrever no lugar: o tratamento, não o produto. "Tratamento de rugas de expressão", "suavização de linhas da testa", "avaliação com médico para rugas dinâmicas". A paciente busca pelo problema e pelo resultado que quer, e o anúncio pode conversar com isso sem citar marca nenhuma.

2. Substância sem registro ou nome técnico que o Google não reconhece

O Google mantém uma lista de substâncias não aprovadas, e ela inclui muita coisa que circula no mercado de estética e bem-estar: peptídeos, compostos manipulados, nomes técnicos que aparecem em protocolo mas não têm registro. Quando a página de destino apresenta uma dessas substâncias como tratamento, o anúncio pode ser reprovado mesmo com o texto do anúncio limpo.

Já vi campanha pronta, com anúncio impecável, ficar parada dias por causa de um nome técnico repetido algumas vezes no site. O anúncio não tinha nada de errado; a página tinha.

O que fazer: antes de subir campanha, revisar o texto da página de destino inteira, não só o anúncio. Se o protocolo usa uma substância com nome técnico, confirme com o responsável técnico se ela tem registro na Anvisa. Se não tiver, trocar o nome por um apelido não resolve: o que o Google avalia é a substância sendo oferecida como tratamento. Nesse caso, o anúncio fala do objetivo (firmeza, textura, regeneração da pele) e a substância fica fora da página. Vale lembrar que isso muda com o tempo: o PMMA, por exemplo, passou a ser proibido pelo CFM em 2026, e divulgar o uso virou infração.

3. Promessa de resultado

"Resultado garantido", "sem dor", "definitivo", "100% natural", "rejuvenesça 10 anos". O Google tem uma política contra declarações não confiáveis e promessas falsas, e a Resolução CFM 2.336/2023 veda "garantir, prometer ou insinuar bons resultados do tratamento" (art. 11, XII). É o tipo de texto que perde nas duas frentes: pode ser reprovado pela plataforma e ainda vira risco ético.

E tem um efeito colateral pouco lembrado: promessa atrai o público errado. Quem clica em "resultado garantido" é quem está comparando preço e procurando milagre, não a paciente de alto ticket que pesquisa antes de decidir.

O que escrever no lugar: o que o procedimento faz e pra quem ele serve. "Bioestimulador para flacidez leve a moderada", "avaliação individual antes de indicar o tratamento", "resultado varia conforme o caso, entenda na consulta". Soa menos chamativo, filtra melhor e passa na revisão.

4. Texto gritado

"PROMOÇÃO!!!", "ÚLTIMAS VAGAS", "GRÁTIS", emoji e símbolo no meio do título. O Google tem uma política editorial que reprova letra maiúscula por chamariz, pontuação repetida, emoji, símbolo fora da função e grafia pra driblar filtro (tipo "B0T0X"). Não tem nada a ver com saúde, mas derruba anúncio de clínica toda semana.

O que escrever no lugar: frase normal, com a informação que importa. "Avaliação individual com médica especialista" converte mais pra alto ticket do que qualquer "IMPERDÍVEL".

5. Imagem de antes e depois

Não é palavra, mas entra na lista porque derruba do mesmo jeito: no Google, foto de antes e depois pra promover mudança no corpo é proibida no anúncio, independente do texto. Na Meta a regra afrouxou em 2026, e eu expliquei a diferença entre as duas plataformas no post sobre a regra de antes e depois.

Onde o problema costuma estar escondido

Na maioria das reprovações que vejo, o anúncio está limpo e o problema está no site: página de procedimento escrita pelo fornecedor do produto, texto antigo que ninguém revisou, depoimento com promessa de resultado, nome de marca no título da página. O Google avalia o anúncio, a página de destino e o serviço oferecido. Uma palavra isolada num canto do site não trava sozinha, mas quando ela aparece na oferta, no título da página ou no agendamento, o risco é real.

Por isso a revisão de compliance não começa no anúncio, começa na página pra onde ele manda. É o mesmo raciocínio de o que dá pra fazer em anúncio de procedimento estético: texto que informa passa na revisão, é aceito pelo conselho e atrai a paciente certa, tudo ao mesmo tempo.

Fontes oficiais: Google Ads, política de Saúde e medicamentos; Google Ads, política de Deturpação; Google Ads, padrões editoriais; Google Ads, lista de termos de medicamento monitorados; Lei 9.294/1996; Resolução CFM 2.336/2023.